Saiba o que é P-beauty, movimento da ‘beleza peculiar’

 

Modelos de nariz comprido, lábios finos, olheiras, sobrancelhas grossas e orelhas proeminentes ganham cada vez mais espaço. 

Novos rostos não convencionais na moda podem redefinir os padrões de beleza.

Charles Baudelaire, poeta francês, argumentou certa vez que a beleza contém sempre uma pitada de peculiaridade. E, depois de anos em que o universo da moda reforçou os padrões de beleza simétricos e distantes da realidade, muitas coisas parecem estar mudando. Enfrentamos o ‘boom’ das harmonizações faciais há pouco tempo e agora chegamos ao processo inverso da ‘desarmonização’ facial: há um movimento mundial puxado pelas redes sociais para o P-Beauty, ou beleza peculiar, alternativa ou real. “Para as mulheres: sobrancelhas levantadas, maçãs do rosto marcadas, lábios grossos e queixo pontiagudo. Para os homens: mandíbula marcada e queixo quadrado. Todos com o nariz retificado e empinado. Esse foi o padrão de beleza vendido”, explica o dermatologista Dr. Daniel Cassiano, da Clínica GRU e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Mas há mudanças acontecendo: recentemente, a modelo Armie Harutyunya, com características peculiares como nariz comprido, lábios finos, olheiras, sobrancelhas grossas e orelhas proeminentes, foi escolhida como musa da marca italiana Gucci – o que levantou um grande debate sobre padrões de beleza atuais, já acompanhados há algum tempo no universo das cirurgias plásticas. “Há cerca de uma década, ter um nariz mais largo, com saliência pronunciada e uma ponta mais grossa era visto como um ‘problema’ cuja ‘solução’ apontava para dois caminhos: a auto aceitação ou a mudança radical através de uma cirurgia plástica. Tudo isso porque existia um padrão: o nariz pós-cirúrgico era fino e arrebitado. Mas agora realmente isso ficou no passado. Os médicos cirurgiões-plásticos, hoje, estão abordando as rinoplastias com uma abordagem mais artística e individualizada, usando novas técnicas cirúrgicas e não cirúrgicas para refinar em vez de renovar uma das características mais proeminentes do rosto. Aprendemos a fazer rinoplastia de uma certa maneira, mas agora isso é muito menos matemático. É realmente uma questão de passar tempo conversando com o paciente e descobrir o que ele está procurando para optar pela maneira mais harmônica possível”, diz o cirurgião plástico Dr. Mário Farinazzo, cirurgião plástico membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Chefe do Setor de Rinologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Paralelamente, a indústria da moda finalmente acordou para a realidade de que existem belezas muito mais complexas do que os padrões pré-estabelecidos das supermodelos que perpetuaram na década de 90. Já surgiram até agências de modelos na Polônia, Alemanha e Inglaterra que se especializaram em recrutar pessoas de características físicas e nuances estéticas da chamada “beleza alternativa” (alt-beauty), que incluem pessoas acima do peso, visual geek (nerds fãs de eletrônicos e quadrinhos) e características excêntricas e pessoas comuns que se sentem confortáveis na sua própria pele.

Sai de campo também a ditadura da magreza. No campo da Nutrologia, há um reforço cada vez maior para que as pessoas adquiram novos hábitos alimentares com foco na saúde. “Pode haver uma padronização da beleza no que diz respeito à moda e à estética, porém para a Medicina, para nós médicos, é importante o paciente estar saudável. As dietas extremamente restritivas ou mal conduzidas podem afetar emocionalmente as pessoas e, particularmente nesse momento de pandemia que atravessamos, elas são altamente não recomendadas. Por outro lado, não podemos deixar de ressaltar que a obesidade, pessoas com IMC acima de 30 kg/m2, são portadoras de doença crônica e não de um padrão estético diferente, portanto precisam de tratamento médico. Nesse período atípico que atravessamos, os índices de obesidade no país deram um salto exponencial”, diz a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Os reflexos do P-Beauty também são vistos nas críticas recentes a celebridades nacionais e internacionais, que apareceram na mídia com os rostos completamente mudados após excessos de procedimentos injetáveis. “Há uma banalização dos procedimentos estéticos hoje em dia. As pessoas são frequentemente bombardeadas nas redes sociais por profissionais de saúde e influenciadores divulgando procedimentos que vendem uma ideia de rejuvenescimento e beleza. Nesse cenário, existe a falsa impressão que todos devem fazer alguma coisa para melhorar. O maior cuidado antes de fazer uma harmonização facial deve ser a razão pela qual se está se submetendo a um procedimento. O que realmente te incomoda? Não faça procedimentos apenas porque a blogueira postou na semana passada”, explica o Dr. Daniel Cassiano. De acordo com o cirurgião plástico Dr. Mário Farinazzo, as buscas por procedimentos estéticos continuam, mas a procura, agora, mostra uma característica cada vez mais forte: a busca por resultados naturais. “As técnicas evoluíram para conferir maior naturalidade aos pacientes, sempre respeitando seus traços. A ideia de uma aparência artificial após um procedimento já não é mais a tendência”, afirma o Dr. Mário, um dos pioneiros no Brasil e referência nacional da técnica de rinoplastia preservadora – procedimento menos invasivo para a cirurgia do nariz. “Longe de aparentar um ‘rosto cirúrgico’, o melhor resultado para esse paciente é quando os amigos percebem que ele está na sua melhor versão, mas não associam isso necessariamente a uma cirurgia”, diz o médico. Além de ser mais estruturalmente sólida, a nova e sutil plástica no nariz também reflete a evolução das normas sociais e dos padrões de beleza. As primeiras cirurgias no nariz foram realizadas em 1800, principalmente em pacientes que queriam parecer mais “brancos”. Hoje, muitos pacientes que buscam uma plástica no nariz não querem ‘perder’ sua etnia.

E resultado natural não quer dizer necessariamente procedimento não invasivo. Um estudo recente publicado no final de fevereiro no periódico Aesthetic Plastic Surgery, uma publicação do International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Isaps) relata que está aumentando o número de pacientes que procuram a rinoplastia cirúrgica depois que já receberam ácido hialurônico injetado no nariz. “Com a ajuda de selfies e do Instagram, os jovens ficaram obcecados com sua imagem. E percebemos um crescimento muito grande por procedimentos injetáveis durante um período, justamente por conta dos resultados rápidos e da recuperação mais fácil. Só que o fato de o efeito ser passageiro, exigindo manutenções constantes, já que as substâncias injetáveis são reabsorvidas pelo organismo com o passar do tempo, tem feito muitos pacientes desistirem do excesso de procedimentos não invasivos e apostarem em cirurgias plásticas que realmente têm um resultado definitivo”, afirma o cirurgião plástico Dr. Paolo Rubez, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e especialista em Rinoplastia Estética e Reparadora pela Case Western University. Segundo dados da realização de procedimentos cirúrgicos nos últimos anos da Isaps, a maior parte das rinoplastias (64,5%) ocorreu em jovens de 19 a 34 anos de idade, enquanto os injetáveis foram mais populares entre pacientes de 35 a 50 anos (46,1% do total). A rinoplastia também continua sendo o procedimento estético mais comum em pacientes com 18 anos ou menos.

No caso dos procedimentos faciais rejuvenescedores, aqueles contra as rugas e flacidez, o movimento P-Beauty abraça a ideia do Pro-Aging, de incentivar um rosto mais natural contra os excessos de “Anti-idade”, evitando exageros que artificializam o rosto. “A técnica cirúrgica não é mais a mesma: agora preferimos reposicionar os músculos e estruturas profundas em vez de apenas esticar a pele, o que gera resultados mais naturais e duradouros. É possível intervir em regime de hospital-dia (saída na mesma noite) ou mesmo sob anestesia local”, afirma o Dr. Paolo.

Além dos resultados mais naturais, outra tendência vista nos consultórios, segundo o dermatologista Dr. Abdo Salomão Jr, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, é a busca por: tecnologias ultra potentes, procedimentos com sessões mais rápidas ao mesmo tempo em que oferecem menor nível de dor e inchaço, e tratamentos preventivos. “A ajuda da tecnologia é muito importante nessa busca por naturalidade”, afirma o médico.

Segundo o dermatologista Dr. Abdo Salomão, o paciente está de olho em novas tecnologias que possibilitem o tratamento Pró-aging de rugas e flacidez, com resultados menos artificiais, mas que ao mesmo tempo valorizem o bem-estar e autocuidado. A principal – e mais diferente – tecnologia dos últimos anos para esse fim é o laser de picossegundos Pico Ultra 300. “Ele emite pulsos de energia que produzem microvesículas de ar no interior da pele para promover o estímulo da neocolagênese e o alinhamento harmônico das fibras de colágeno e elastina, promovendo o rejuvenescimento da pele com redução da aparência das rugas e linhas de expressão e aumento da firmeza e da elasticidade. E, por produzir comprimentos de onda de 1064nm e 512nm, o equipamento age tanto na epiderme quanto na derme profunda, promovendo assim um tratamento global da pele”, finaliza o dermatologista.

FONTES:

*DR. ABDO SALOMÃO JR: Doutor em Dermatologia pela USP (Universidade de São Paulo). É sócio Efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Membro da American Academy of Dermatology (AAD), Sociedade Brasileira de laser em Medicina e Cirurgia e do Colégio Ibero Latino Americano de Dermatologia. Professor universitário, Dr. Abdo Salomão Jr. ministra aulas nos principais congressos nacionais da especialidade. Além disso, já deu aulas na Austrália, Itália e Coréia do Sul. É uma referência em conhecimento de lasers e tecnologias para fins dermatológicos e estéticos. Diretor da Clínica Dermatológica Abdo Salomão Junior.

*DR. DANIEL CASSIANO: Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. Cofundador da clínica GRU Saúde, o Dr. Daniel Cassiano é formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Doutorando em medicina translacional também pela UNIFESP. Professor de Dermatologia do curso de medicina da Universidade São Camilo, o Dr. Daniel possui amplo conhecimento científico, atuando nas áreas de dermatologia clínica, cirúrgica e cosmiátrica.

*DR. MÁRIO FARINAZZO: Cirurgião plástico, membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Chefe do Setor de Rinologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Formado em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o médico é especialista em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Professor de Trauma da Face e Rinoplastia da UNIFESP e Cirurgião Instrutor do Dallas Rinoplasthy™ e Dallas Cosmetic Surgery and Medicine™ Annual Meetings. Opera nos Hospitais Sírio, Einstein, São Luiz, Oswaldo Cruz, entre outros. www.mariofarinazzo.com.br

*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica Nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRMPR, Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo.

*DR. PAOLO RUBEZ: Cirurgião plástico, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (ASPS) e da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), Dr. Paolo Rubez é Mestre em Cirurgia Plástica pela Escola Paulista de Medicina da UNIFESP. O médico é especialista em Cirurgia de Enxaqueca pela Case Western University, com o Dr Bahman Guyuron (em Cleveland – EUA) e em Rinoplastia Estética e Reparadora, pela mesma Universidade e pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. http://drpaolorubez.com.br/

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