Especialista pede um olhar novo e mais empático frente a questão da obesidade

O respeito da fome é central e o peso é consequência e não causa do problema.

O mundo, inclusive o Brasil, vive uma pandemia crônica que é a obesidade. E enquanto o foco principal do tratamento estiver ligado diretamente à perda de peso, o quadro de saúde da população tende a piorar. É com este discurso, totalmente na contramão da maioria dos profissionais da saúde, que Sophie Deram pretende chamar a atenção de autoridades públicas por meio do “Manifesto para o novo olhar sobre a obesidade”, que acontece online e ao vivo no dia 21 de novembro.

“A responsabilidade do sucesso do emagrecimento implica diretamente em questões de controle, cálculo, restrição, disciplina e força de vontade. No entanto, simplificar o tratamento a “fechar a boca e malhar mais”, ou “foco, força e fé”, não está cientificamente associado a uma perda de peso sustentável”, explica a PhD em nutrição. O tratamento atual está sendo um fracasso, pois nenhum país do mundo conseguiu diminuir a prevalência de obesidade nesses últimos 35 anos. Precisamos rever o tratamento”, alerta Sophie

Trazer um amplo debate para despertar uma reflexão de como lidar de forma mais atualizada e humana com o tratamento por conta do excesso de peso é o principal objetivo do evento online. A ideia é que também sejam apresentadas alternativas para enfrentar essa condição que afeta 19,8% da população brasileira, segundo o Ministério da Saúde, levando a conclusão do manifesto diretamente ao poder público.

Os convidados também apresentarão estudos científicos que contribuirão para discutir os desafios do tratamento da obesidade sem o uso de dietas restritivas. A programação é destinada a profissionais de saúde que atuam com pessoas acima do peso, além do público em geral interessado no tema.

Para Sophie, o “Manifesto para um Novo Olhar sobre Obesidade” tratará, sobretudo, de algumas questões centrais. Entre elas, as formas de respeitar o paciente, como colocá-lo como protagonista num eventual atendimento sem uso de dietas restritivas. Hoje, muitas evidências científicas mostram que é importante o paciente parar de terceirizar a fome e se reconectar consigo mesmo. O respeito da fome é central e o peso é consequência e não causa do problema.

De acordo com a especialista, o mundo vive em uma pandemia crônica e a comunidade médica, os próprios nutricionistas e a mídia em geral não sabem como tratar o tema obesidade. “As dietas restritivas não têm eficácia, pois uma pessoa pode adquirir todo o peso novamente depois de um tempo, que pode ser de seis meses até cinco anos, dependendo do método que a pessoa escolheu. Além disso, as dietas modificam o comportamento alimentar da pessoa, deixando ela com mais apetite e aumentando o risco dela desenvolver transtornos alimentares ou mesmo psicológicos, como ansiedade e depressão”, alerta.

Na sua avaliação, é preciso dar um olhar mais humanizado aos pacientes com obesidade porque, infelizmente, existe muita estigmatização e gordofobia na pessoa em excesso de peso. “Não podemos identificar tais pessoas como preguiçosas, gulosas e faltando força de vontade. As causas do excesso de peso são múltiplas e precisam ser abordadas com respeito e empatia. A saúde é um conceito que engloba o bem estar físico, mental e social da pessoa e sua qualidade de vida, não somente o seu peso”, completa.

Evento sem fins lucrativos e sem conflito de interesses com as indústrias alimentícia e farmacêutica

O evento estava previsto para acontecer de forma presencial em maio, no MASP em São Paulo. Com o isolamento social motivado pela pandemia diante da Covid-19, ele será transmitido online dia 21 de novembro. A iniciativa é sem fins lucrativos e, para evitar conflitos de interesses, a organização não tem aceitado patrocínios de empresas alimentícias ou farmacêuticas. Os lucros do evento serão revertidos para os laboratórios de pesquisa dos palestrantes e outras iniciativas de pesquisa sobre o tratamento da obesidade.

Além da idealizadora, o manifesto contará com a mediação da jornalista Fabíola Cidral e das participações do sociólogo e antropologista francês Claude Fischler, do coordenador da Assistência Clínica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), o psiquiatra Táki Cordás, da médica Paula Teixeira, fundadora do centro brasileiro de Mindful Eating e dos pesquisadores e também nutricionistas Dennys Cintra e Maria Carolina Mendes da UNICAMP.

Serviço:

“Manifesto para o novo olhar sobre a obesidade”
Mediação: Fabíola Cidral
Quando: 21 de novembro.
Horário: das 9h às 17h
Inscrições: neste link
OBS: os ingressos são limitados

Programação:

9h – 11h – Apresentação e introdução sobre os desafios de resolver a obesidade no Brasil e no mundo. Palestras gravadas de Claude Fischler, Sophie Deram e Taki Cordas.

11h – Bate papo ao vivo com a Mediadora, Taki Cordas, Sophie Deram e um paciente.

14h – 16h – Palestras gravadas sobre o funcionamento do cérebro de pessoas obesas quando realizam dietas restritivas, com Dennys Cintra e Sophie Deram. Discussão sobre a influência da microbiota (microorganismos instalados no intestino) no funcionamento do cérebro, com Maria Carolina Mendes. Apresentação da médica Paula Teixeira, especialista em comer consciente (mindful eating), com depoimento da historia dela.

16h – Bate papo ao vivo com os palestrantes e a Mediadora

Sophie Deram: Autora do livro “O Peso das Dietas”, é engenheira agrônoma de AgroParisTech (Paris), nutricionista franco-brasileira e doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) no departamento de Endocrinologia. Além de especialista em tratamento de Transtornos Alimentares pelo AMBULIM – Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, é coordenadora do projeto de genética e do banco de DNA dos pacientes com transtorno alimentar no AMBULIM no laboratorio de Neurociencias.

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