
Por Pamela Golin*
Já reparou como os espaços onde vivemos influenciam nossas emoções? Como certas texturas, cores e até a iluminação podem nos deixar mais calmos, mais focados ou até mais criativos? O design vai além de ser apenas uma questão estética. Ele reflete, cada vez mais, a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor. E, em 2025, a Semana de Design de Milão nos revelou uma transformação nesse sentido.
Milão, tradicionalmente um dos maiores centros do design mundial, não só apresentou novos móveis e produtos, mas também promoveu um debate profundo sobre a relação entre o ser humano e os espaços que habitamos. Durante a Semana de Design, a cidade se transformou em um ponto de encontro para discutir questões que vão além do visual: como entender as nossas necessidades mais humanas e propor soluções que atendam a um mundo que busca autenticidade e interage entre o físico e o digital.
Mapeamos três comportamentos, na Semana de Design em Milão, como tendências no cenário atual. E esses não se limitam a influenciar apenas o design, eles tocam questões universais: o desejo por conforto emocional, a valorização do tempo e a fusão entre o espaço físico e o digital.
AMBIENTES QUE ABRAÇAM
Após anos priorizando eficiência e funcionalidade, os espaços buscam se tornar refúgios, oferecendo a sensação de acolhimento. O design de hoje não se resume a linhas retas ou superfícies lisas, mas é sobre criar ambientes que nos envolvem, nos fazem sentir seguros e confortáveis.
Isso se traduz em produtos com formas mais suaves e materiais naturais, que oferecem um toque acolhedor. Cores neutras, combinadas com uma iluminação suave, criam atmosferas relaxantes e menos invasivas. Os espaços são projetados para permitir pausas, com móveis amplos e confortáveis, áreas de descanso e espaços que permitem o contato com a natureza. Esses detalhes ajudam a transformar um ambiente em um verdadeiro abrigo, onde o simples ato de estar ali se torna um momento de calma e bem-estar.
O VALOR DO TEMPO
A segunda tendência se destaca pela valorização do tempo. Ao invés de buscar a perfeição ou o novo a qualquer custo, o design celebra as marcas que o tempo deixa nos materiais. O desgaste natural, as texturas e os sinais de uso se tornam parte de um estilo que reconhece a evolução dos objetos e dos espaços.
Isso se traduz em acabamentos que mostram o processo de envelhecimento, como a madeira que adquire uma pátina única ou pisos de cimento queimado que se tornam mais charmosos com o tempo. Além disso, a escolha de materiais reciclados ou restaurados, que mantêm as marcas do uso, é cada vez mais comum, celebrando a autenticidade e a durabilidade. O design abraça a imperfeição e sugere que as cicatrizes do tempo não devem ser escondidas, mas sim valorizadas como parte da história de um espaço.
Esses projetos não só têm uma estética única, mas também um impacto ambiental e cultural. Ao priorizar o reaproveitamento e a durabilidade, os produtos se distanciam da lógica do descartável e se aproximam de uma proposta mais consciente e sustentável.
QUANDO O REAL SE MISTURA AO DIGITAL
Por fim, a terceira direção envolve a fusão entre o físico e o digital. Com a tecnologia se tornando cada vez mais presente no nosso cotidiano, os espaços também começam a incorporar elementos digitais de maneira fluida e integrada. Esse comportamento não se limita a simples compra de dispositivos e gadgets, mas a criação de ambientes que respondem de maneira inteligente e sensorial ao nosso comportamento.
Na prática, são espaços que se ajustam automaticamente à luz, à temperatura ou à acústica, criando uma experiência personalizada para cada pessoa. Imagine, por exemplo, um escritório onde a iluminação se adapta ao ritmo circadiano dos funcionários, ou uma loja onde a realidade aumentada permite que você visualize diferentes opções de móveis em seu ambiente real. Essas tecnologias, ao invés de serem gadgets isolados, tornam-se parte integral do ambiente, criando uma experiência que mistura o real e o digital de maneira contínua.
Esses espaços não só oferecem uma experiência mais dinâmica, mas também permitem que os ambientes se adaptem constantemente às nossas necessidades, criando uma sensação de continuidade e fluidez entre o físico e o digital.
Essas três abordagens falam diretamente sobre a transformação do que entendemos como habitar. Não se trata apenas de buscar novos produtos ou novas estéticas, mas de um movimento que reflete quem somos e como queremos viver. O design nos desafia a olhar para o futuro com mais sensibilidade, mais autenticidade e mais conexão com o tempo e com o espaço que ocupamos.
*Pamela Golin é gerente de Produto e Branding do Portobello Grupo.
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