O que a predisposição genética pode revelar sobre isso.

A recusa alimentar persistente na infância costuma ser reduzida a um problema comportamental. Essa leitura simplificada ignora um dado central da medicina contemporânea: o corpo, sobretudo em fases precoces do desenvolvimento, responde antes da consciência racional. A rejeição pode anteceder o diagnóstico clínico e funcionar como um marcador biológico de vulnerabilidade.
Segundo o Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, pós-PhD em Neurociências, especialista em Genômica e Bioinformática, com formação em Nutrição Clínica, “o organismo não rejeita sem motivo; ele aprende, por vias neuroquímicas e sensoriais, o que lhe causa desequilíbrio”.
Do ponto de vista neurobiológico, essa resposta envolve o eixo intestino–cérebro, mediado pelo nervo vago, núcleos do tronco encefálico, como o núcleo do trato solitário, e neurotransmissores como serotonina e dopamina, responsáveis pela associação entre alimento, prazer e aversão.
QUANDO NÃO É FRESCURA
A literatura médica e nutricional sustenta que a rejeição alimentar pode representar um sinal de alerta fisiológico. Entre os principais fatores, destacam-se:
- Predisposição genética a intolerâncias não alérgicasNem toda rejeição ao glúten ou à lactose está ligada a alergia clássica. Polimorfismos genéticos associados à função renal, inflamação intestinal ou metabolismo proteico podem gerar desconfortos subclínicos. A criança evita o alimento porque o associa, mesmo sem consciência, a mal-estar sistêmico.
- Hipermobilidade e dificuldades mecânicasCrianças no espectro da hipermobilidade apresentam maior elasticidade dos tecidos conjuntivos, incluindo musculatura orofaríngea e esofágica. Isso pode dificultar a deglutição, gerar engasgos frequentes e levar à recusa alimentar como mecanismo de autoproteção.
- Sensibilidade sensorial aumentada
Alterações no processamento sensorial, comuns em perfis neurodivergentes, envolvem hiperatividade de áreas como o córtex insular e o tálamo. Texturas, temperaturas e odores passam a ser percebidos como aversivos, não por escolha, mas por sobrecarga neural.
- Dificuldades digestivas funcionais
Imaturidade enzimática, baixa produção de bile ou dificuldade no metabolismo de gorduras e proteínas levam o sistema digestivo a sinalizar estresse. A resposta comportamental é a evitação do alimento associado ao desconforto.
- Resposta instintiva evolutiva
O paladar amargo, frequentemente presente em vegetais escuros, ativa circuitos antigos de defesa associados à amígdala. Em algumas crianças, esse mecanismo permanece mais sensível, funcionando como um filtro biológico mais rígido.
- Inflamação silenciosa e fadiga metabólica
Crianças que rejeitam determinados alimentos e apresentam cansaço excessivo, alterações cutâneas ou intestinais podem estar reagindo a processos inflamatórios de base genética, ainda não diagnosticados clinicamente.
ANTES DE JULGAR, COMPREENDER
O GIP – Genetic Intelligence Project surge como uma ferramenta de apoio à parentalidade consciente. A partir da análise de dados genéticos, o projeto identifica predisposições metabólicas, neurológicas e sensoriais que ajudam a explicar comportamentos alimentares atípicos.
A proposta não é rotular a criança, mas traduzir biologicamente aquilo que o comportamento já sinaliza. “Entender antes de corrigir” reduz erros educativos, evita coerções desnecessárias e favorece intervenções personalizadas, alinhadas à medicina de precisão.
O QUE FAZER
Quando a rejeição alimentar é persistente e acompanhada de sinais como diarreia, obstipação, refluxo, manchas na pele, dores abdominais ou fadiga, a orientação é clara: procurar um pediatra ou nutricionista pediátrico para investigação fisiológica. O comportamento pode ser o primeiro sintoma visível de um desequilíbrio invisível.
Reduzir tudo à “frescura” é ignorar que o corpo infantil, muitas vezes, sabe antes aquilo que a ciência só irá confirmar depois.
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