Varejo: poupar hoje para não faltar amanhã

Nos países em desenvolvimento o desperdício de alimentos acontece basicamente em virtude de problemas de armazenamento.

Nos países em desenvolvimento o desperdício de alimentos acontece basicamente em virtude de problemas de armazenamento.

Por Ricardo Zibas* 

Atualmente, vivemos em uma sociedade que estimula o consumo constante. Esse padrão de comportamento global tem gerado vários problemas, entre eles, o desperdício de alimentos. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (Food and Agriculture Organization – FAO), aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas métricas de alimentos são desperdiçadas por ano no mundo inteiro, e cerca de um terço desse total é produzido pelo consumo humano. Esse processo tem um alto custo financeiro para osvarejistas e para os fornecedores, sem falar nos danos duradouros que afetam a reputação do setor.

Apesar do excesso de desperdício ser considerado uma questão de alta complexidade, é de suma importância encontrar meios para diminuir o descarte de alimentos ao longo da cadeia de suprimentos. Nesse sentido, nos Estados Unidos alguns órgãos reguladores já estão adotando medidas como, por exemplo, em Massachusetts onde instalações comerciais que geram um grande volume de alimentos desperdiçados são obrigadas a desviar tais materiais dos aterros sanitários. Já na Europa, uma alteração na legislação que rege o formato e o tamanho de 26 frutas e legumes permitiu que as lojas vendessem produtos disformes. A medida ajudou a reduzir o desperdício de mantimentos e, consequentemente, o impacto financeiro sobre o setor.

Enquanto isso, nos países em desenvolvimento o desperdício de alimentos acontece basicamente em virtude de problemas de armazenamento. Como exemplo disso, calcula-se que 80% do arroz no Vietnã não consegue chegar às prateleiras por causa de falhas na conservação. No Brasil, a história não poderia ser diferente. De acordo com a FAO, estamos entre os dez países que mais desperdiçam mantimentos. Estima-se que aproximadamente 64% do que se planta em território nacional é  perdido ao longo da cadeia produtiva.

Zibas

Ricardo Zibas, da KPMG no Brasil.

Devemos ressaltar que, além do gargalo da perda de alimentos, a indústria varejista agora também tem que lidar com a escassez de água e, consequentemente, de energia elétrica. Tanto o primeiro recurso quanto o segundo sempre foram utilizados como se fossem infinitos e sem maiores preocupações com a sustentabilidade, o que gerou o esgotamento de ambos e resultou em uma crise que está afetando o setor de varejo bem como todos os segmentos da economia brasileira.

O cenário atual demonstra a grande necessidade de ações para conter o desperdício desses recursos. Nesse sentido, podemos observar que, embora tardiamente, algumas leis e campanhas já estão sendo criadas a nível nacional. Podemos citar como exemplos a criação de uma multa para coibir o uso inapropriado da água e do Selo Estabelecimento Sustentável, projeto de lei com o objetivo de reduzir o mau uso de alimentos em estabelecimentos varejistas.

Tendo em vista esse contexto, é de suma importância que a responsabilidade pela redução da perda de alimentos por descarte de produtos excedentes, assim como  a conservação dos recursos hídricos precisam tornar-se prioridades na pauta do governo e das empresas. Além do mais, também é necessário que os profissionais do setor varejista estejam preparados para incorporar em sua rotina diária atitudes para prevenir os desperdícios. Ou seja, o que mais vale nesse momento é uma política de poupar hoje para não faltar amanhã. 

*Ricardo Zibas é diretor da área de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da KPMG no Brasil.

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