Se uma imagem vale mil palavras, seria melhor aparecer bem na Olimpíada

Rio 2016: que a boa imagem a ser construída com os melhores esportistas do mundo, não fique apenas na memória.

Rio 2016: que a boa imagem a ser construída com os melhores esportistas do mundo, não fique apenas na memória.

Por Adinan Nogueira*

Em tempos de fotos no Face, Instagram, Tinder, dentre outras redes sociais, todo mundo quer aparecer bonito na foto. Sensualizar para se vender é algo simples e rápido. De qualquer forma, em uma geração e em tempos que produzimos mais imagens que todas as imagens produzidas em séculos de história, nada é tão urgente que controlar, gerir e fazer da realidade uma boa âncora para a experiência do real que vem a partir do que se conheceu pela imagem. Consumimos imagens e vivemos depois experiências.

Mas, quando falamos de algo maior, de algo que envolve a todos nós, ou minimamente a população de um Estado em termos de benefício, não é simplesmente uma imagem veiculada ou campanha que vão resolver o esqueleto da realidade em contraponto ao que se encontra na cabeça do pretenso consumidor e dos famosos stakeholders.  

Rio 2016, além do pretenso legado em questão de infraestrutura, assim como a própria Copa 2014 falou aos borbotões, tem a pretensão de deixar um rastro na cabeça de milhões de turistas, brasileiros e estrangeiros, que poderão visitar uma das cidades mais bonitas do mundo, o próprio Rio de Janeiro. Mas além das questões do legado, vem a reboque uma chuva de notícias veiculadas aqui e lá fora, que produziram e estão produzindo uma série de rastros que, em um diagnóstico mais preciso, talvez aponte que estamos escancarando as portas das mazelas e das questões negativas que poderão ter um peso mais forte nas decisões de consumo quanto ao Rio e ao próprio País como destino.

Já li pesquisas dizendo que as notícias negativas não se sobrepunham ao desejo e vontade de conhecer o Rio e o Brasil. Agora, o tom parece um pouco diferente, e pelas redes sociais e pelos grandes veículos se ecoa algo mais contundente e pernicioso que talvez não estejamos percebendo.

Pesquisa recente do próprio Ministério do Turismo  já demonstra que os turistas estão preferindo recantos mais interioranos, a grandes capitais. Então imaginem isso em relação ao Rio e ao Brasil após tantas deixas e rastros.

Chikungunya, Zica, segurança, salários atrasados, caos na saúde, ataques terroristas, traficantes, drogas, corrupção, poluição das águas da Guanabara, ciclovia caída, carros alugados roubados, Vila Olímpica inacabada, são palavras chaves que tem circulado pela web e pelos grandes veículos de divulgação nos últimos tempos.

Dá-se a impressão um pouco de baile da Ilha Fiscal. Muita pompa e circunstâncias e pouca realidade de fato para sustentar uma imagem desejada.

Vai ser boa a Olimpíada para o Rio e para o Brasil? A resposta vai cair no velho clichê: conseguiremos chamar atenção! Chamar atenção no grito vale? Pelo ineditismo dos vacilos?

Neste caso o importante é chamar a atenção para questões pretensamente positivas. Mas resta a grande dúvida: o quanto do positivo vai se sobressair a tantas questões negativas, e quanto disso não poderia ser ampliado positivamente se a realidade não fosse tão dura e tão perversa, e muitas vezes tão pouco cuidada com vontade devida e força? Que palavras estamos deixando na cabeça dos consumidores e possíveis consumidores para a construção e manutenção de uma boa imagem, que rendas os melhores frutos para todos?

Assim, resta o grande desafio aos gestores de marketing do turismo do Rio e do Brasil: diagnosticar minimamente a imagem na cabeça dos turistas e possíveis turistas para se fazer o balanço final e uma boa gestão nos próximos anos.

Afinal de contas, o Rio de Janeiro continua lindo. Mas tem uma realidade gritando e fazendo um eco que não é bom. E que vai além da Vila Olímpica mal acabada, dos morros e de tudo  que vemos.

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas mil realidades incoerentes não suportam uma boa imagem. Não há photoshop que sobreviva sem uma boa base.

No caso das Olimpíada, com tantas horas de veiculação, certamente as imagens positivas produzidas e veiculadas nos quatro cantos do mundo deverão suplantar as negativas numa conta que, se verificada a médio prazo, teremos um saldo positivo para usufruir. A longo prazo, é melhor repensar nossos valores, nosso jeito de fazer o que temos que fazer. Porque a realidade vai suplantar a propaganda positiva, dando nuances que ninguém gostaria de mostrar. É bom lembrar que fazer marketing como se sabe não é somente fazer propaganda. É um desafio muito maior que isso. Quem sabe isso entre na lista do dever de casa dos nossos governantes, pois as nossas grandes cidades, por meio de suas tristes notícias, já tem espantado boa parte dos turistas estrangeiros que vem para cá. Ou seja, a realidade também faz parte do produto e ajuda na boa construção e gestão de uma imagem turística atraente e relevante.

Que a boa imagem a ser construída com os melhores esportistas do mundo, não fique apenas na memória. Mas que transformem nossa realidade, pois o que realmente deveria ser padrão Copa e Olimpíada,  de fato, ainda não constituem um novo paradigma para a gente ficar melhor na foto.

*Adinan Nogueira é autor do livro “Imagem no marketing turístico: conceitos e metodologias de medição”.

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