Beth Carvalho tem sua obra fundamental, gravada de 1976 a 87, toda digitalizada nas plataformas de streaming

Nenhum outro intérprete do samba de raiz tem uma discografia tão impecável quanto à de Beth Carvalho. O filé mignon de seu repertório pertence hoje à Sony Music e, embora esta já viesse disponibilizando diversos títulos nas plataformas de streaming (Spotify, Deezer e Apple Music), agora o motivo é de comemoração, pois todos os que faltavam de seu período áureo – de 1976 a 87 – estão devidamente ao alcance do público, inclusive dois que revolucionaram o próprio gênero samba, “De pé no chão” (1978) e seu sucessor, “No pagode” (1979), ambos produzidos por Rildo Hora.

O primeiro trouxe a turma do Cacique de Ramos – com seus compositores geniais, suas harmonias caprichadas e seu novo jeito de tocar o bom e velho samba, com instrumentos como o repique, o tantã e o banjo com afinação de cavaquinho –, e o segundo, com tudo isso e mais o fato de popularizar um termo, antes restrito às rodas de samba – “pagode”, que nada mais é que um apelido do maior ritmo brasileiro.

Também chegaram às plataformas “Beth” (1986), um álbum que coroa a geração de “pagodeiros” de raiz, como Almir Guineto e Zeca Pagodinho, que acabavam de estourar em todo o país, e “Ao vivo em Montreux” (1987), um marco em sua carreira internacional, no famoso festival suíço, que desde 1978 passou a dedicar uma de suas noites especialmente à música brasileira. Os dois foram produzidos por Renato Corrêa, dos Golden Boys. Fecham o pacote duas coletâneas caprichadas, “Vou festejar” e “Toque de malícia”.

Pérolas de Beth, disco a disco

“De pé no chão”, que completa quarenta primaveras neste ano de 2018, resgatou sambas e bambas outrora mais restritos às quadras das escolas e que começavam a ganhar notoriedade graças a ela e alguns de seus colegas de geração que lhe conferiram notoriedade. É o caso de Monarco (“Lenço”, com Chico Santana, e “Linda borboleta”, parceria póstuma com o legendário Paulo da Portela), Chatim (“Passarinho”), Nelson Sargento (com o clássico “Agoniza, mas não morre”, lançado neste disco), além dos seus favoritos, que ela sempre prestigiou em todos os seus LPs enquanto foram vivos, Cartola (“Que sejam bem-vindos”) e Nelson Cavaquinho (“Meu caminho”, com Guilherme de Brito). Os contemporâneos da sambista também não fazem feio, contribuindo com pérolas como “Goiabada Cascão” (Wilson Moreira e Nei Lopes), “Você, eu e a orgia” (Martinho da Vila e Candeia), “Ô Isaura” (Rubens da Mangueira) e “Marcando bobeira” (João Quadrado e Beto Sem Braço) – todas, de grande sucesso nos pagodes de então, as duas últimas também nas rádios. “Visual” (Neném/ Pintado) trazia uma grande crítica às transformações na gênese das escolas de samba, privilegiando figuras alheias às comunidades, curvando-se “à circunstância imposta pelo dinheiro”. Finalmente, havia o grande sucesso atemporal, “Vou festejar”, das crias do Cacique, Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias, que estourou no carnaval de 79.

“No pagode” (1979) consagrou outro sucesso carnavalesco, “Coisinha do pai”, de Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos, além de colocar na boca do povo “Xô gafanhoto” (Rubens da Mangueira/ Ivan), “Pedi ao céu” (outra de Almir, com Luverci Ernesto) e “Senhora rezadeira” (Dedé da Portela/ Dida). “Beth” (1986) já traz autores dessa geração de afilhados do Cacique de Ramos em franca ascensão, seja como participantes do Grupo Fundo de Quintal, como Arlindo Cruz (“Partido alto mora no meu coração”, com Acyr Marques) e Sombrinha (“Fogo de saudade”, com Adilson Vitor, sucesso romântico do disco), ou outros egressos deste grupo, mas que já haviam partido para a carreira solo, como Jorge Aragão (“Coisa de pele”, com Acyr Marques, que um dos versos, anos mais tarde, batizaria o grupo Art Popular) e Almir Guineto (no mega hit “Corda no pescoço”, com Adaldo Magalha), sem contar Luiz Carlos da Vila, com o hino pró-negritude, “Nas veias do Brasil”, e Zeca Pagodinho, que ela lançou em 1983 no álbum “Suor no rosto” com “Camarão que dorme a onda leva”, e que comparecia desta vez num dueto em “Dor de amor” (dele, com Almir e Acyr Marques), outro êxito do álbum. De quebra, há uma participação da diva latino-americana Mercedes Sosa na comovente “Eu só peço a Deus (Solo le pido a Diós).

O álbum “Beth Carvalho ao vivo em Montreux” (1987), além do sucesso “Cacique de Ramos”, de Sereno e Noca da Portela, autorreferente ao êxito do bloco e suas crias, rebobinou uma série de grandes êxitos da cantora (“Andança”, “Vou festejar”, “Firme e forte”), alguns “lados B” de seus discos (“Carro de boi”, “Vovó Chica”, “O encanto do Gantois”) e sambas clássicos revividos num pout-pourri (“Tristeza”, “Madureira chorou” e “Barracão”). Finalmente, as coletâneas “Vou festejar” (1989) e “Toque de malícia” (1990) trazem outros petardos que todo o Brasil cantou. Do primeiro, há “Olho por olho”, “A chuva cai” e “Coração feliz”, e do segundo, a faixa-título, “Suor no rosto”, “Saco de feijão” e “Virada” – este um dos sambas que puxaram o coro pelo movimento das “Diretas Já” no início da década de 80.

O legado fundamental de Beth Carvalho está, enfim, preservado para as novas gerações entenderem que é possível fazer uma música de grande qualidade – melódica, rítmica e poética – e atingir a alma popular.

 

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